• Chico Buarque : - « Apesar de você » ; - « Fado tropical »

    Apesar de Você

    Hoje você é quem manda
    Falou, tá falado
    Não tem discussão
    A minha gente hoje anda
    Falando de lado
    E olhando pro chão, viu

    Você que inventou esse estado
    E inventou de inventar
    Toda a escuridão
    Você que inventou o pecado
    Esqueceu-se de inventar
    O perdão

    Apesar de você
    Amanhã há de ser
    Outro dia
    Eu pergunto a você
    Onde vai se esconder
    Da enorme euforia
    Como vai proibir
    Quando o galo insistir
    Em cantar
    Água nova brotando
    E a gente se amando
    Sem parar

    Quando chegar o momento
    Esse meu sofrimento
    Vou cobrar com juros, juro
    Todo esse amor reprimido
    Esse grito contido
    Este samba no escuro

    Você que inventou a tristeza
    Ora, tenha a fineza
    De desinventar
    Você vai pagar e é dobrado
    Cada lágrima rolada
    Nesse meu penar

    Apesar de você
    Amanhã há de ser
    Outro dia
    Inda pago pra ver
    O jardim florescer
    Qual você não queria
    Você vai se amargar
    Vendo o dia raiar
    Sem lhe pedir licença
    E eu vou morrer de rir
    Que esse dia há de vir
    Antes do que você pensa

    Apesar de você
    Amanhã há de ser
    Outro dia
    Você vai ter que ver
    A manhã renascer
    E esbanjar poesia
    Como vai se explicar
    Vendo o céu clarear
    De repente, impunemente
    Como vai abafar
    Nosso coro a cantar
    Na sua frente

    Apesar de você
    Amanhã há de ser
    Outro dia
    Você vai se dar mal
    Etc. e tal
    Lá lá lá lá laiá

     

    Fado Tropical

     Oh, musa do meu fado Oh, minha mãe gentil
    Te deixo consternado No primeiro abril
    Mas não sê tão ingrata Não esquece quem te amou
    E em tua densa mata Se perdeu e se encontrou

    Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
    Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

    "Sabe, no fundo eu sou um sentimental
    Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo
    (além da sífilis, é claro)
    Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar,
    trucidar
    Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

    Com avencas na caatinga Alecrins no canavial
    Licores na moringa Um vinho tropical
    E a linda mulata Com rendas do Alentejo
    De quem numa bravata Arrebato um beijo

    Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
    Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

    "Meu coração tem um sereno jeito
    E as minhas mãos o golpe duro e presto
    De tal maneira que, depois de feito
    Desencontrado, eu mesmo me contesto
    Se trago as mãos distantes do meu peito
    É que há distância entre intenção e gesto
    E se o meu coração nas mãos estreito
    Me assombra a súbita impressão de incesto
    Quando me encontro no calor da luta
    Ostento a aguda empunhadura à proa
    Mas o meu peito se desabotoa
    E se a sentença se anuncia bruta
    Mais que depressa a mão cega executa
    Pois que senão o coração perdoa"

    Guitarras e sanfonas, Jasmins, coqueiros, fontes
    Sardinhas, mandioca
    Num suave azulejo
    E o rio Amazonas Que corre Trás-os-Montes
    E numa pororoca Deságua no Tejo

    Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
    Ainda vai tornar-se um império colonial

    Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
    Ainda vai tornar-se um império colonial

    Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
    Ainda vai tornar-se um império colonial

    Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
    Ainda vai tornar-se um império colonial.

     

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